Dica de Livro: "O Córrego", de Lázaro Cassar

14/5/2018

 
Córrego, atalho estreito riscado sobre a terra, pela própria água, para a vazão de um fluxo corrente, que se origina de uma nascente. Um fenômeno natural qualificado à analogia mais que perfeita do escape de nossas próprias emoções. Quantas vezes é necessário abrir sulcos, pequenas frestas em nosso emocional, na tentativa de deixar fluir um tanto que seja da abundância de nossos sentimentos represados.

 

O Córrego, livro de Lázaro Cassar, editora Multifoco, é ao mesmo tempo nascente e vazadouro. Nos incita ao contato de algo do qual já somos abundantes, mas que ainda tentamos compreender sua natureza.

 

São doze contos ambientados no Rio de Janeiro, com histórias que permeiam o absurdo, devido à realidade exposta de forma ousada, nua e crua. Realidade esta, que se curva, de modo excepcional, ao mais erudito e filosófico, como o conto "Amor de Mãe" - uma releitura de "Fausto" de Goethe - e "A Cidade Abandonada", repleto de referências culturais. 

 

O Córrego é uma obra visceral e, precisamente por isso, sensível aos detalhes. O autor nos concedeu parte de seu olhar apurado sobre um atributo quase sempre ignorado; o belo existente no cotidiano, principalmente na dor da existência, onde é possível extrair a beleza mais íntima e primitiva. Pois, como disse Freud, "onde abundam as dores brotam os licores".

 

 

 

Sobre o autor:

Lázaro Cassar nasceu em 24 de junho de 1978, no Rio de Janeiro. Formado em letras pela UFRJ, é professor de Português, Literatura e Redação em redes públicas e privadas. Participou de inúmeros projetos referentes à leitura em comunidades carentes, dentre os quais, a criação de uma biblioteca no Caju (que mais adiante recebeu o seu nome) e o Calçadão da Leitura, em Piabetá. Colaborador em sites de literatura, música e cinema. Apaixonado tanto pela brutalidade de um Borges quanto pelo romantismo de um Roberto. O Córrego é o seu primeiro livro.

 

 

Trecho do livro:

"As lágrimas transformavam a planície num imenso borrão, como uma tela derretida. Arrisquei um olhar para trás e não vi mais nada. Apenas a linha de um deserto. Considerei esse fato comum, já que meus olhos haviam se desacostumado com tudo que não fosse o filete d´água, e segui meu rumo. Continuei por horas e horas andando, inclusive já sem esperança de voltar por aquele mesmo caminho - aliás, sem esperanças de voltar. Minhas pernas tremiam de dor, a cabeça queimava como o inferno e tudo ao meu redor parecia volver. Precisava focar no córrego, nada além de seu segredo me importava mais, nada além de conseguir alcançar essa realidade que subjugava meus limites e me fazia crer em coisas que só bem mais adiante eu definiria."

 

 

O livro pode ser adquirido através da fanpage do autor:

https://www.facebook.com/CassarLazaro

 

 

 

 

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Andreia Marques é filósofa, escritora, poetisa, mediadora de leitura,  blogueira e designer.

Autora dos livros "Bééé Daqui... Bééé Dali!", "Quibungo", ”Berenice, a Cacatua”, “Melina e as Borboletas Noturnas”, “A Velha Pisadeira”, “Corpo Seco” e "Corda, Cordão e Muita Imaginação!".

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